Por que o Brasil não tem autotestes de covid-19 disponíveis?



Usados nos EUA e em países da Europa, autotestes contra covid-19 ganharam espaço no debate com a alta de casos no fim do ano

 

Ir à farmácia, comprar um teste de covid-19, testar-se em casa e verificar o resultado em minutos. Tudo por um preço acessível.

É a promessa dos chamados autotestes, modelo no qual o usuário faz sua própria testagem e usado em países europeus, asiáticos e nos Estados Unidos. Por aqui, os autotestes para o coronavírus ainda não são autorizados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mas viraram assunto recorrente nas redes sociais com a busca por diagnóstico nas festas de fim de ano.

 

Defensores do formato afirmam que o autoteste poderia ajudar o Brasil, um país que testa até menos do que vizinhos latino-americanos, a alavancar o combate à pandemia. Também há um histórico bem-sucedido com a autorização de autotestes de HIV, uma exceção aberta pela Anvisa em 2016 e hoje com testes vendidos em farmácias ou distribuídos gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

O que falta, então, para que autotestes de covid-19 possam ser comprados também no Brasil? A EXAME procurou uma dezena de especialistas, fabricantes de testes, laboratórios, farmácias e outras fontes do setor, que aceitaram gravar entrevista ou falaram em condição de anonimato.

O tema tem sido discutido entre os atores de saúde desde o ano passado. É quase consenso entre o setor privado ligado ao diagnóstico que os autotestes são uma alternativa que somaria aos esforços, embora haja preocupação entre alguns atores sobre como seria feita a notificação dos casos e a educação da população.

Esses dois pontos, em especial, explicam grande parte da cautela dos reguladores em aprovar o modelo. Soma-se a isso a falta de priorização do Ministério da Saúde a respeito do tema da testagem, dizem fontes. Procurada sobre se há estudos internos sobre os autotestes ou previsão de repensar as normas, a Anvisa não respondeu ainda aos questionamentos. Em eventos públicos, a agência vem dizendo que está aberta a debater o assunto.

“No geral, o que temos visto no exterior é essa possibilidade de ter uma informação muito confiável com o autoteste de antígeno, que rapidamente dá à pessoa condição de tomar várias ações — pode avisar seus contatos e deixar de colocar outros em risco”, diz Carlos Gouvêa, presidente da Câmara Brasileira de Diagnóstico Laboratorial, que representa 70% do setor de diagnóstico no Brasil.

“Passados dois anos de pandemia, estamos muito bem servidos de fabricantes no Brasil, há muitos que poderiam adaptar e rapidamente disponibilizar esses testes.”

 

O risco da subnotificação

 

Grosso modo, o entrave para o autoteste é uma normativa de 2015 da Anvisa. A regra exige que os resultados de doenças contagiosas e de notificação compulsória sejam coletados por profissional especializado (caso da covid-19, mas não de testes de gravidez, por exemplo).

O modelo mais restrito confere segurança à coleta, garantindo que seja feita de forma adequada e com resultado notificado às autoridades – é por isso que, no aplicativo ConecteSUS, do Ministério da Saúde, estão visíveis todos os testes de covid-19 do usuário, mesmo os da rede privada.

 

 

Fonte: Exame

Publicado em 6 de janeiro de 2022


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